AVOA *2
Duas ilhas remotas e uma na Toscana, famílias à bordo e duas fotógrafas viajantes
A AVOA é feita de viagens físicas, geográficas, literárias, visuais, pessoais, alheias e digitais. Todas lícitas, pra não arrumar confusão com a polícia. É um intervalo nessa vida louca para voar por aí sem sair do lugar. O que coloco aqui é o que encontro buscando possibilidades de viagens ou viajando em várias possibilidades. Pode chegar.
Na foto:

Sou um tantinho fixada em ilhas. Já visitei algumas e quero ir a muitas mais. Vira e mexe estou cavucando informações sobre a vida, a história e a natureza nesses pedaços de terra espalhados pelo globo.
Aqui estão três delas, cada uma num canto do mundo.

Pitcairn, no Pacífico Sul, é um dos lugares habitados mais remotos do mundo. Segundo o Google, suas quatro ilhas ficam a 8 mil km do Brasil. Só a principal, com 47km quadrados, é habitada. Os 50 moradores são ótimos anfitriões e descendem dos amotinados do navio inglês HMS Bounty, que lá se estabeleceram em 1790. Pitcairn faz parte do território ultramarino inglês e lá, pasme, fala-se o idioma “pitkern”, além do inglês oficial, lógico.
Mais do que a localização e a história pitoresca, a pequenina Pitcairn tem trunfos que justificam uma visita: a Reserva Marinha das Ilhas Pitcairn (Pitcairn, Henderson, Ducie e Oeno) é uma das maiores do mundo, com 840.000 quilômetros quadrados. A ilha Henderson é considerada Patrimônio da Humanidade pela UNESCO por abrigar espécies ameaçadas de pássaros. O arquipélago é um dos 15 lugares no mundo designados como Santuário Internacional de Céu Escuro. Um detalhe triste: uma das atrações de Pitcairn é a tartaruga de Galápagos, chamada Mrs Turpin, que foi deixada lá no começo do século XX e vive solitária na costa noroeste da ilha.
Opções para chegar a Pitcairn: alguns cruzeiros que fazem a rota do Pacífico Sul conseguem licença para que os passageiros visitem a ilha. Navios saem de Rikitea, nas ilhas Gambier, e levam visitantes que tenham vistos de entrada. Iates e veleiros que navegam na região param em Pitcairn para reabastecimento e para conhecer a ilha, que possui infra para hospedar os visitantes. A temporada de visitas a Pitcairn já começou. Informe-se no site do governo da ilha. Se quiser dar uma olhada em Pitcairn, veja o vídeo do @YesTheory

Outra que recebeu o título de uma das ilhas habitadas mais remotas do mundo é Tristão da Cunha, com 98 km quadrados e cerca de 250 habitantes. Também território britânico, ela é formada por um vulcão e fica no Atlântico, a mais de 2.500 quilômetros da África do Sul e a 3.700 quilômetros da América do Sul. A civilização mais próxima é a ilha de Santa Helena, a 2.100 quilômetros. A ligação entre Tristão da Cunha e o mundo só pode ser feita por navio, a partir da Cidade do Cabo, e dura 6 a 10 dias. De vez em quando iates e navios de cruzeiro que cruzam o oceano dão uma paradinha lá. O arquipélago é formado pelas ilhas Tristão da Cunha, Nightingale, Inaccessible e Gough, que abrigam um santuário marinho com milhares de aves, focas, tubarões e baleias. Os habitantes de Tristão da Cunha têm ascendência escocesa, norte-americana, holandesa e italiana e vivem em sua única vila, Edimburgo dos Sete Mares.
A ilha de Tristão da Cunha foi descoberta em 1506 pelo explorador português que lhe dá nome, mas só foi habitada a partir de 1816, quando os britânicos mandaram um destacamento para evitar que os franceses resgatassem Napoleão, que estava exilado em Santa Helena. Os descendentes daqueles marinheiros e de visitantes que chegaram e foram ficando constituem a população que sobrevive da pesca de lagosta, criação de ovelhas e plantação de batatas. Duas curiosidades: 1) Em 1961 uma erupção do vulcão obrigou todos os moradores da ilha a serem levados para o Reino Unido. Mas a maioria dos ilhéus não se adaptou bem à vida na Inglaterra e, em 1963, depois que a erupção cessou e os danos foram avaliados, quase todos decidiram voltar para Tristão, onde reconstruíram suas casas e restabeleceram a comunidade. 2) Sua pequena população compartilha apenas 7 sobrenomes: Glass, Green, Hagan, Lavarello, Repetto, Rogers e Swain. Gostou? Que tal uma visita?

O governo italiano acaba de abrir a agenda de visitas para a ilha de Montecristo, no Mar Tirreno. São 1.725 vagas para apenas 23 datas de visita, a primeira no dia 22 de março e a última em 21 de setembro. As vagas costumam acabar rápido. Nem isolada e nem habitada, Montecristo não é só o cenário do romance “O Conde de Montecristo”, de Alexandre Dumas. Com 10 km quadrados, sua importância para a biodiversidade é reconhecida mundialmente: em1988 passou a ser considerada área de proteção europeia e parte do Parque Nacional do Arquipélago Toscano, da reserva da Biosfera da UNESCO “Ilhas da Toscana” e do Santuário de Pelagos, uma área internacional de proteção dos mamíferos marinhos. Montecristo fica a 40 km da ilha de Elba e a 68 km de Piombino, em Livorno, Itália.
Possível local de culto dedicado a Júpiter na época romana, etruscos, gregos, turcos e franceses passaram por Montecristo, que foi moradia de São Mamiliano no século V. Até o século XVI a ilha abrigou uma próspera comunidade monástica. Hoje a ilha, quase inteiramente de granito, é desabitada. É proibido nadar a menos de 1km de sua costa e navegar ao seu redor. Montecristo é rigidamente guardada pelo Regimento de Biodiversidade dos Carabinieri e só pode ser visitada com guias e a licença obtida com o cadastramento que o Parque acaba de abrir. Se quer conhecê-la, veja a agenda de visitas e registre-se. Antes que a vagas acabem.
Famílias à vela:

@SailTudoBem – O veleiro ainda não estava pronto quando Estela e Pedro Zanni criaram o perfil no dia 10 de janeiro de 2021 para compartilhar não só a realização do sonho que acalentavam desde crianças - dar a volta ao mundo - mas também um propósito: a mensagem de liberdade para pessoas com deficiência. Pouco depois, na Espanha, embarcaram com os filhos Aninha, na época com 3 anos, e Gabriel, com quase 2, no veleiro Tudo Bem para a velejada de 3 anos ao redor do planeta. Durante a viagem, Estela mostrou aos seguidores a evolução da Aninha, com síndrome de Down e limitações físicas e de saúde, e de Gabriel. Contou as aventuras, os passeios em terra, as burocracias e dificuldades enfrentadas, as paradas estratégicas para os exames periódicos que Aninha precisa fazer, a adaptação e a rotina da família no exíguo espaço do veleiro. Tudo com leveza e objetividade. Em breve eles lançam um livro sobre a jornada. Escrevi sobre a viagem da família Zanni no UOL quando ela estava no meio do caminho. Leia aqui.
@El_barco_amarillo – Há 6 anos os argentinos Juan, Coni e o pequeno, Ulises, então com 2 anos, deixaram Buenos Aires no veleiro El Barco Amarillo sem data para voltar e nem um destino final. Passaram por Florianópolis e ficaram um bom tempo ancorados na Ilha Grande, no Estado do Rio. Enquanto viviam lá, adotaram a cachorrinha Lula e nasceu a pequena Renata. Atualmente estão na Polinésia Francesa, em outro barco, o Cambombia, com o qual cruzaram o Canal do Panamá. Eles vivem a bordo, se alimentam de produtos locais, vivem a vida e os hábitos das comunidades por onde passam, sem perder a raiz portenha. Em seus vídeos e fotos, também mostram como é a vida no veleiro, onde hospedam e passeiam com quem deseja viver a experiência de morar a bordo. Para financiar a viagem, também alugam duas casas que construíram ecologicamente na Ilha Grande e o apartamento de BAs. Coni, jornalista, escreveu um livro sobre a aventura da família e um infantil, sobre Ulises e Lula na Ilha Grande. Se quiser viajar com eles, o contato está no perfil do Instagram.
Nas fotos:
Admiro a fotografia de Annie Griffiths há tempos. Ela foi uma das primeiras profissionais a trabalhar para a National Geographic e já percorreu quase 150 países documentando a natureza, hábitos e a cultura, não só para a NG, mas diversas outras publicações. Suas imagens estão em diversos livros e ela também fotografa para organizações de ajuda humanitária ao redor do mundo. Annie é a fundadora da Ripple Effect Images, um coletivo de fotógrafos que documentam programas que empoderam mulheres e meninas no mundo em desenvolvimento, é fundadora da The International League of Conservation Photographers e recebeu diversos prêmios por seu trabalho. Pelo perfil do Instagram é possível mergulhar nas fotos de Annie.
Conheci a fotógrafa carioca Luciana Whitaker quando trabalhamos na Folha de S. Paulo na mesma época, ela no Rio e eu em São Paulo. Faz tempo. A vida a levou para o Alasca, onde viveu, teve seus filhos e documentou lindamente a vida naquele lugar tão distante de nós, que vivemos nos trópicos. De lá para cá Luciana coleciona viagens e imagens incríveis, expressivas e únicas que retratam o Brasil e o mundo. De volta ao Rio, no perfil do Instagram ela define sua área de atuação com a frase “traveling and exploring are my things”. Suas fotos estão na imprensa nacional e internacional. Veja uma amostra de seu portfólio no site LucianaWhitaker.com e em seu perfil do Instagram. É um deslumbre!
Fui e gostei:
Trinidad, Cuba.

E aqui termina a segunda edição da AVOA!
Espero que tenha sido uma boa viagem para você.
Até a próxima!



To amando essas viagens!
Anna, adorei! Com essa quedinha por ilhas, acho que você devia considerar Bali… Não que seja exatamente isolada, ou pouco habitada, mas… 😂