AVOA*26
A estreia das crônicas do jornalista Sergio Ignacio sobre deslocamento e pertencimento e mais: check-in digital obrigatório nos hotéis, Melilla, Chipre do Norte e propostas para um novo turismo
✈︎ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ── ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ 🌍
Na foto_

✈︎ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ── ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ 🌍
Na frase_
“Viajar é fatal para o preconceito, a intolerância e as mentes limitadas.” Mark Twain, escritor
✈︎ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ── ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ 🌍
Na crônica_
Quem lê a AVOA sabe que ela surgiu de minha paixão por viajar e da minha crença de que tudo na vida é viagem e que toda viagem é cultura. Para oferecer um conteúdo interessante e útil, faço curadoria cuidadosa do que é publicado no Brasil e no mundo sobre estes assuntos. Mas, há algum tempo, vinha pensando em aprofundá-la, ampliando os sentidos de “viagem”. Por isso, propus ao jornalista e psicanalista Sergio Ignacio publicar aqui suas crônicas e contos sobre deslocamentos e pertencimento.
O maior interesse de Sergio, um grande amigo, está no que as viagens revelam sobre quem somos. Com estudos voltados para sujeito e sociedade, ele observa o mundo pela escuta, pela história, pelo comportamento e pela delicada série de ensaios Cartografias do Pertencimento na seção Opinião, do jornal português Público Brasil. Agradeço ao editor Vicente Nunes por autorizar a publicação das crônicas de Sergio Ignacio na AVOA.
Grisalho, nadador, depois de visitar cerca de 65 países - parte deles chegando pelo mar - e viver curtas temporadas em alguns, ele reúne sensibilidade ao olhar do viajante e transforma os gestos humanos em formas de narrativa. Na AVOA*26, Sergio Ignacio chega para pensar o turismo como experiência, memória e movimento. Tenho certeza de que você vai gostar.
✈︎ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ── ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ 🌍
O estrangeiro que habita em nós
Sergio Ignacio
Num gesto simples, quase esquecido, mas que ainda sustenta o mundo quando o todo mais parece dividido, Lúcia Gaspar, com destreza, junto à sua bengala, pediu licença antes de se sentar.
Ela tem 80 anos, é lisboeta e mora em Moscavide. No entanto, me contou, pouco antes de dar ritmo à conversa, que já havia morado em Alvalade.
Sentou-se à minha mesa com a naturalidade de quem não atravessa distâncias — apenas aproximações.
Eu escrevia. Ela observava. Ficou curiosa e resolveu, com maestria, aquilo que a consumia: o que tanto aquelas mãos escreviam naquele teclado?
Não perguntou o que eu fazia, nem de onde eu vinha.
Perguntou-me apenas se eu conhecia Fernando Farinha.
Falou-me então do “Fado das Trincheiras”, onde, como lembrou, o soldado na trincheira “não passa duma toupeira”.
Na lembrança, tecida em pele clara, bochechas cor-de-rosa, olhar sereno e cabelos grisalhos, a sabedoria antiga se apresentava de forma interessada.
Lúcia não me falava apenas de uma música. Falava de fronteiras e das guerras. Discursava sobre essa estranha capacidade humana de cavar separações onde poderia haver passagem.
Foi então que, com a lucidez tranquila de quem já viu o tempo fazer o seu trabalho, disse-me que as fronteiras há muito deixaram de existir para separar.
Existem para nos aproximar e aperfeiçoar.
Não disse isso como quem defende uma ideia.
Disse como quem descreve o que já viveu, assustada com a maneira como o presente insiste em voltar ao passado. Neste momento, fez uma pausa e uma dolorosa referência ao noticiário da noite anterior.
(O desapontamento de muitos imigrantes brasileiros em Portugal cresce diante da mudança repentina nas regras que antes incentivaram sua vinda, elevando de cinco para sete anos o prazo para direito à cidadania portuguesa. Famílias e investidores que estruturaram suas vidas com base em promessas institucionais, matriculando filhos, adquirindo imóveis e transferindo capital, agora enfrentam incerteza e sensação de desamparo.
A alteração, sancionada de forma inesperada, quebra a previsibilidade que sustentava esses projetos de vida e de integração. Para muitos, isso representa não só um atraso burocrático, mas a fragilização de sua segurança jurídica e do reconhecimento social. O impacto é ainda mais sensível para mães e famílias em formação, que se veem à margem de um acordo que antes parecia sólido aumentando a margem do xenofobia da extrema direita.)
Estávamos no Sabor & Arte, um restaurante aberto há pouco mais de um ano por uma família brasileira vinda de São Miguel do Iguaçu, no interior do Paraná.
Um espaço acolhedor, onde os sotaques não se anulam — ajustam-se. A língua portuguesa se estica, encurta, ganha ritmo diferente e continua sendo casa.
Ali, a família trabalha unida.
Vieram sem ruptura, mas em continuidade — trazendo consigo uma vocação antiga: empreender, cozinhar, servir e construir. E, talvez sem saber, criaram mais do que um negócio. Criaram um lugar.
Um lugar onde ninguém precisa explicar demasiado quem é para poder permanecer.
Ao redor, portugueses e brasileiros dividiam mesas, conversas e silêncios. Ora ou outra, diferentes nacionalidades se aproximavam para provar as habilidades das mãos brasileiras nas panelas, junto aos ingredientes da terra portuguesa.
Não havia esforço de integração. Havia algo discreto e mais profundo: convivência.
E a convivência, quando se instala, dissolve lentamente aquilo que o discurso costuma endurecer.
Lúcia estava ali como parte desse movimento silencioso.
Não como exceção, mas como hábito. Uma bandeira branca.
Volta todos os dias desde que o restaurante abriu suas portas, transformando a esquina num ponto de encontro de fronteiras inexistentes.
E há algo de profundamente revelador nisso: o que se repete deixa de ser estrangeiro.
Foi naquele ambiente — criado por quem atravessou o Atlântico — que Lúcia trouxe à mesa um fado que perguntava pelas guerras, pelas fronteiras e por essa estranha vocação humana de viver debaixo do chão, como toupeiras.
Mas, enquanto falava, parecia que a resposta já não precisava ser cantada.
Estava ali, no livro “Estrangeiros para Nós Mesmos”, quando Julia Kristeva lembra que o estrangeiro não é apenas aquele que vem de fora. Ele habita em nós.
Por isso, o encontro com o outro nos desloca tanto: porque nos obriga a reconhecer uma parte de nós que também já se sentiu fora de lugar.
Acolher quem chega não é apenas um gesto de generosidade. É reconhecer que a imigração não empobrece necessariamente um território. Muitas vezes, ela o amplia.
O que se via naquele restaurante não era a ameaça tantas vezes repetida no discurso fácil: a de que o brasileiro chega para tomar o lugar de alguém. O que se via era trabalho, empreendedorismo, circulação, presença, consumo e pertencimento.
Uma família brasileira criava sustento, servia a comunidade, ativava a economia local e transformava uma esquina de Moscavide num lugar onde portugueses, brasileiros e outras nacionalidades podiam permanecer.
Lúcia parecia compreender isso.
Naquele pequeno ponto de Moscavide, criado por quem atravessou o Atlântico, as fronteiras não desapareceram.
E, quando isso acontece, o que resta não é o vazio — é o encontro inesperado.
Neste caso, provocado pelo casal de brasileiros em terra portuguesa, capazes de acolher outras nações que por ali passam — na pausa para o café, no almoço do trabalho — antes de seguirem para cumprir, em outros lugares, a mesma função: trabalhar, construir e pertencer.
✈︎ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ── ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ 🌍
Nos livros_

Monique Evelle é jornalista, empresária, estrategista de negócios e empreendedora. Foi uma das “Under 30 mais poderosas do Brasil” pela revista Forbes e é uma das maiores vozes da inovação e do impacto social no Brasil. Mas seu novo livro não fala sobre isso. “Viagens que a gente não faz por agenda, faz por amor”, como ela própria define, “é sobre o que acontece com o amor quando a vida exige movimento constante.”
Escrevi no Substack sobre minha mania de conhecer casas e roteiros de escritores. Mas visitar cidades que inspiraram livros também é interessante. A CNN Brasil publicou 7 rotas literárias pelo Brasil para viajar por cenários de livros. Ela cita Ilhéus, terra de “Gabriela Cravo e Canela”, de Jorge Amado. Em Salvador, fui à casa onde ele e Zélia Gattai viveram, no Rio Vermelho, enquanto lia “A Casa do Rio Vermelho”, em que ela fala sobre os 21 anos em que lá moraram e que foi palco de grandes encontros políticos e intelectuais.
A Viagem e Turismo tem matéria sobre o roteiro de 6 dias e 5 noites que a agência de viagens NomadRoots oferece pela Colômbia de Gabriel Garcia Marques.
✈︎ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ── ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ 🌍
No paladar_
Para quem inclui a gastronomia nos roteiros de viagens, Alex & Beyound, perfil de uma pesquisadora de tecnologia que virou escritora de viagens, traz um texto saboroso (sem trocadilhos) sobre onde e o que comer percorrendo a Riviera Francesa: da torta de limão de Menton à tarte tropézienne, em Saint Tropez.
A ilha de Creta foi nomeada Região Europeia da Gastronomia para 2026 pelo Instituto Internacional de Gastronomia, Cultura, Artes e Turismo. A National Geographic conta porque a cidade de Chania pode ser o melhor lugar para saborear a culinária cretense.
Esta é para quem é louco por queijos como eu: a Atlas Obscura indica 17 lugares que os amantes dessa delícia precisam conhecer antes de morrer.
✈︎ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ── ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ 🌍
Nas hospedagens_
É bom saber que, desde o dia 20/4, o check-in digital passa a ser obrigatório em todo o Brasil. A Ficha Nacional de Registro de Hóspedes substitui os papéis que costumávamos preencher ao chegar aos hotéis, pousadas e hospedagens.
A CNTraveler publicou a 30a. edição da Hot List Winners, com as melhores novidades do setor de viagens de 2026 do mundo, escolhidos por seus editores e colaboradores globais: dos novos hotéis, aos restaurantes e navios de cruzeiro. Na foto, o único hotel brasileiro da lista: Uxuá Maré, inaugurado em junho de 2025, em Trancoso, na Bahia.
Em abril, a Trappe, especialista em opções de viagem “que respeitam o planeta e são boas para as pessoas,” sugere a Ripostena Country House, em Siena, na Itália.
✈︎ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ── ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ 🌍
Nos destinos_

A Wanderlust sugere um destino incomum para os brasileiros: Melilla, cidade autônoma espanhola localizada no norte da África, às margens do Mediterrâneo. Com pouco mais de 12km quadrados, Melilla possui praias de areia, centro histórico com o imponente forte La Ciudadela, do século XV, e é, depois de Barcelona, a 2a. cidade da Espanha com mais prédios modernistas.
A Travel+Leisure publicou sua lista dos 20 lugares mais bonitos da Europa. Alguns eu desconhecia e fiquei com muita vontade de visitar. Dá uma olhada!
Como aproveitar uma pequena pausa em São Francisco, Califórnia. Esta é a proposta da Travel Magazine.

E o Chipre? Acaba de ser lançada a plataforma NorthCyprus-Guide.com que, além de informações de viagem e listas verificadas de locais no Chipre do Norte, possui um assistente de viagem com IA que responde dúvidas dos usuários. O site indica as melhores praias, locais históricos, restaurantes e roteiros regionais e está disponível em inglês, turco, alemão, russo, francês, árabe e farsi.
✈︎ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ── ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ 🌍
Sobre turismo_
Vale ler o texto Viajar é, cada vez menos, um ato de liberdade, na Piauí. Ele foi escrito por Mariana Aldrigui, professora e pesquisadora da USP, com 20 anos de estudos sobre turismo, inteligência de dados e políticas públicas.

Quem me apresentou ao Tiny Tourist Report , do It’s Nice That, foi a Maria Clara Villas, da newsletter Galáxia. Ele propõe uma nova forma de pensar o turismo diante da pressão sobre destinos populares e do marketing cada vez distante da realidade dos viajantes. O relatório - que pode ser baixado gratuitamente - reúne perspectivas do público, hábitos de viagem negligenciados e insights de especialistas de plataformas consagradas, além de um guia para equipes criativas que desejam adotar a abordagem proposta.
Nas curiosidades_
Gostar de visitar cemitérios não é tão estranho quanto parece. E para quem curte (me incluo no grupo), a Atlas Obscura reuniu 75 cemitérios “espetaculares”. Alguns já estão na minha lista.
E, já que o tema é espectral, o UOL publicou matéria sobre Calico Ghost Town, cidade fantasma que fica na Califórnia, entre Los Angeles e Las Vegas.
✈︎ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ── ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ ─ 🌍
E assim termina esta edição, com a estreia de Sergio Ignacio!
Logo teremos mais novidades!
Um abraço!



Check in digital é INSUPORTÁVEL. O negócio é complicado, os atendentes do hotel não sabem ajudar, a galera na fila começa a reclamar que tá demorando... quem inventou isso aí olha por deus viu...
Mais uma edição ótima e cheia de links pra eu guardar, eba! (Principalmente os itens gulosos: queijos, cozinha francesa...) E muito boa a estreia do Sergio, mas bem que você também poderia se arriscar nesses textos maiores! (Eu dei um tempo da minha news justamente por também estar pensando em alguma coisa diferente...)