AVOA*29
Feriadões, o calorão da Europa, a África (Cabo Verde, Dakar e Náirobi) e a volta dos guias impressos. No Álbum de Viagem, Giuliana Rovai, paulistana que vive em Lima, mostra novos destinos no Peru.
Na foto_

Na frase_
“Nós viajamos, alguns de nós para sempre, para buscar outros estados, outras vidas, outras almas.” Anaïs Nin, escritora.
Na crônica_
O resto é moldura
Sempre atento ao ato de se deslocar, descobrir e pertencer — e à reflexão sobre esse conjunto de ações que nos move —, parto de uma conversa recente com três amigos imigrantes. Eles têm formações distintas e vivem, hoje, em um país e momento de vida diferentes dos meus.
Sentados à mesa, em um breve interlúdio da conversa, chegamos a uma percepção simples, quase evidente, profundamente estruturante: “…o que de fato sustenta as relações humanas é o relacionamento em si; o resto é moldura”. A frase, dita pelo eloquente amigo, cidadão viajado com experiências migratórias na América do Norte, Europa e no seu país de origem, dirigia a fala à parede da sala de jantar.
A imagem surgiu a partir da observação de uma obra de arte. Ali, diante dela, ficou claro que o que importa não é a moldura — apesar da importante estrutura que oferece para abrigar o pensamento do artista —, mas, sim, aquilo que está contido nela: o que está na tela expresso em cor e emoção e o que foi pintado, organizado, dito e colocado diante do olhar de quem frui a pintura que estava em consonância com o tema da nossa conversa. A moldura delimita, enquadra, protege, mas não é conteúdo.
Proponho esse paralelo para pensar a experiência migratória, especialmente a partir do lugar de um brasileiro vivendo em Portugal. A imigração não pode ser reduzida a uma estatística administrativa ou tratada apenas como um tema político conjuntural. Ela é, antes de tudo, uma questão humana.
Tenho insistido, nos ensaios anteriores, na dimensão humana desse fenômeno. Na condição de psicanalista, apoio-me especialmente naquilo que a imigração mobiliza do ponto de vista psicossocial — na articulação entre sujeito e sociedade, entre identidade e deslocamento.
O que observo, entretanto, é que o endurecimento interessado das leis migratórias em Portugal — e em outros contextos contemporâneos — exige mais do que respostas normativas. Requer equilíbrio, visão de futuro, estrutura e compreensão da complexidade do fenômeno migratório.
Quando comparo esse movimento com outras experiências internacionais, ou mesmo com o cenário global atual, percebo um endurecimento progressivo das fronteiras que, em muitos casos, não apenas limita a circulação de pessoas, mas também compromete a possibilidade de que o deslocamento humano aconteça de forma coerente com necessidades profissionais, intelectuais e existenciais.
Em última instância, quando a circulação humana é bloqueada ou excessivamente restringida, o que se produz não é estabilidade, mas tensão acumulada — que pode se traduzir em crises sociais, econômicas e, em casos extremos, em conflitos que ultrapassam a esfera simbólica e atingem a vida concreta dos Estados e das pessoas. Invasões, bombas e mortes.
A habitação fica precarizada, o desemprego se estabelece e, assim, o preconceito se institui como norma.
Rígidas molduras administrativas, torneadas por políticas alicerçadas no pensamento arcaico e idealizado de uma nação pura, na frágil ideia de poder econômico e na crença de que o cidadão nato é capaz de produzir e manter estruturas, forjam homens com microfones em punho a doutrinar uma horda da esfera social isenta de pensamento crítico e identidade para entender como se concebe uma obra. O mundo foi e continua sendo construído pela possibilidade de se atravessar fronteiras. É assim que cientistas, pesquisadores, empreendedores, vacinas, alimentos e tecnologias nos fizeram chegar até aqui e administrar os equívocos de quem não compreende a relação com a fronteira e o Outro.
Uma obra é algo que habita a principal expressão de um artista. Somos, todos nós, artistas de nossas obras: como chefes de família, operários, empreendedores, astronautas, mecânicos, cozinheiras, médicos, professoras, doutoras, engenheiros, artesãs, mães, pais e uma infinidade de escolhas para viver o presente e construir o futuro.
Fazer da casa uma nação. Escolher uma nação para se construir uma casa.
Lá em casa foi assim. Meus avós paternos portugueses se instalaram no Brasil, construíram uma parte da sua história por lá e trouxeram consigo os primeiros filhos nascidos em Portugal, que vieram a ter irmãos brasileiros. E, assim, também veio a contribuição do laço materno de Piemonte, na Itália.
O resto é moldura.
Nos feriadões_
O dia 9 de julho é feriado no Estado de São Paulo, em comemoração à Revolução Constitucionalista de 1932, quando civis e militares paulistas se rebelaram contra o governo de Getúlio Vargas - que havia assumido o poder em 1930 sem convocar eleições - exigindo uma nova Constituição. Este ano ele cai na quinta: feriadão! O Viaje na Viagem faz sugestões de passeios para o 9 de julho e também para 7 de setembro, Dia da Independência, que será numa segunda-feira.
E se o feriado apontar para Monte Verde, no sul de Minas Gerais, a CNN Viagem & Gastronomia informa que, a partir de 1o de julho, a cidade será mais uma a cobrar taxa ambiental. Angra dos Reis (RJ), Bombinhas (SC), Fernando de Noronha (PE), Jericoacoara (CE), Porto Seguro (BA) e Campos do Jordão (SP) são algumas cidades que já adotaram a tarifa.
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No calorão_
A imprensa mundial está falando sobre a onda de calor que está castigando a Europa, como o inglês The Guardian e a portuguesa RTP. França, Espanha e Itália são alguns dos países mais afetados. Imagens de parisienses mergulhando no Canal Saint Martin tomaram conta das redes sociais. Se você está ou vai para lá, o Le Figaro informa que os locais turísticos de várias cidades estão se adaptando às novas temperaturas.
Na AFAR, especialistas apontam os erros comuns que os viajantes cometem durante temperaturas extremas.
O New York Times criou a seção “Extreme Heat” (Calor Extremo), com monitoramento interativo das temperaturas no continente europeu, fotos e vídeos mostrando como as pessoas estão enfrentando o calorão, dicas para se manter seguro durante o calor extremo e soluções simples para quem vai para o verão no Velho Continente..
A Lonely Planet indica o melhor a fazer durante o escaldante verão de Paris. Nos anos 1930, como se vê abaixo, a canícula chegava a 34 graus. Este ano os termômetros em Paris alcançaram máximas de 39°C a 44°C.
Nos guias_

Apesar das ferramentas digitais de planejamento de viagens baseadas na Inteligência Artificial estarem se tornando comuns, os guias turísticos impressos estão voltando com força. A NSS Edicola publicou matéria em janeiro de 2025 indicando o retorno das publicações, tendência confirmada pelo HNR Hotels News, em dezembro.
A Galáxia, newsletter de Maria Clara Villas, sugere os guias da Zara, com fotos espetaculares. Dá uma olhada!
Na literatura_
Não basta ler. Cada vez mais leitores e leitoras querem conhecer os lugares onde se passam as histórias contadas nos livros e/ou onde viveram os escritores. Matéria do New York Times aborda a tendência, muito estimulada pelos clubes do livro de celebridades, hotéis, empresas de viagens especializadas e, inclusive, pelo BookTok, uma comunidade do TikTok voltada para a literatura.
Com trechos de seus livros, mapas e fotos, “O Rio de Fernando Sabino”, da editora Autêntica, percorre os roteiros preferidos do escritor mineiro no Rio de Janeiro, onde viveu por mais de 50 anos. Ele faz parte da coleção “O Rio da Literatura”, da autora e pesquisadora Teresa Montero, composta por guias literários afetivos. O primeiro foi “O Rio de Clarice”, sobre a relação da escritora Clarice Lispector com a cidade.
Em “Passando aperto na classe executiva”, da editora e-Galáxia, Tiago Caramuru faz um diário de viagens com suas experiências boas e ruins nas muitas cidades que visitou pelo mundo.
Na África_

Ganhe quem ganhar, a seleção de Cabo Verde conquistou o lugar de queridinha da Copa de 2026 (com a grave mancha causada pela acusação de estupro contra o capitão Ryan Mendes, feita por uma brasileira). A determinação exibida ao enfrentar as equipes adversárias, as defesas de Vozinha e a simpatia de sua torcida elevaram os “tubarões azuis” ao primeiro lugar na categoria. O mundo fala de Cabo Verde. A revista Unquiet, por exemplo, fez um roteiro pelo país, composto por 10 ilhas, habitadas por 560 mil habitantes que falam português e crioulo, e que foi entreposto do tráfico de pessoas escravizadas da África para a América.
A Folha de S. Paulo conta como é profunda a relação entre Cabo Verde e o Brasil. E a CNN faz um resumo da história e das características de Cabo Verde.
Em Dakar, a escritora Vivienne Dovi, da Time Out, fez sua primeira aula de surfe e escreveu sobre a desconhecida relação da capital do Senegal com este esporte.
Falar de África agora lembra, infelizmente, os surtos de Ebola na República Popular do Congo e em Uganda. Alicia Erickson, também escritora, conta na AFAR como é viajar pela África Central e Oriental em meio ao surto da doença.
A série “Grand Voyager”, da Euronews, foi a Nairóbi e mostra a cultura, a natureza e o luxo da capital do Quênia.
Nas curiosidades_

Uma grade de metrô de Manhattan, que passa desapercebida, criou uma das imagens mais icônicas do cinema americano. Ela fica na esquina sudoeste da Avenida Lexington com a Rua 52 e quem mora ou visita Nova York deve ter passado por lá muitas vezes sem saber disso. O Atlas Obscura conta a história. O Iphoto Channel diverge em alguns pontos.
Álbum de Viagem




Dois destinos peruanos diferentes
Machu Picchu é um dos lugares mais conhecidos da América do Sul e um autêntico representante do turismo no Peru, mas o país tem uma grande diversidade de paisagens e, dois lugares menos conhecidos entre os brasileiros, comprovam como ainda há muito a ser descoberto.
Huaraz, na Cordillera Blanca, e Tarapoto, na selva peruana, são ótimas opções para quem aprecia viagens com uma pitada de aventura.
Ponto de partida para trekkings, Huaraz possui lagunas de águas cristalinas em tons de verde e azul, que rendem caminhadas de nível leve a avançado e garantem lindas fotos. É possível ir de carro, saindo de Lima, em cerca de oito horas, ou de avião, da capital até o aeroporto de Anta, em uma hora.
Huaraz está a 3.052 metros de altitude e as trilhas até as lagunas podem alcançar altitudes bem mais elevadas. A Laguna Congelada, por exemplo, está a 4.700 metros. Alguns passeios recomendados:
• Laguna Rocotuyoc: mais isolada, de difícil acesso, com uma paisagem absolutamente impactante. No final da trilha chega-se à Laguna Congelada, uma enorme placa de gelo sobre uma lagoa, visual único nos Andes.
• Laguna Llanganuco: mais acessível, com estrutura para turistas e vistas de tirar o fôlego. O caminho até lá já vale o passeio. Com bom preparo físico, vale ir até a Laguna 69, uma das mais famosas da região.
Já Tarapoto fica na região de Selva (o país é dividido em três regiões: Selva, Sierra, onde está Huaraz, e Costa, onde está Lima). Perto de Tarapoto fica a Cordillera Escalera, com uma reserva ambiental e um lodge, o Bosque Guardián, de apenas 12 cabanas, em 150 hectares de mata.
Partindo de Lima, o trajeto até Tarapoto leva cerca de uma hora e meia de avião. Depois, é necessário percorrer mais uma hora de carro pela estrada que liga Tarapoto a Yurimaguas até chegar ao lodge, cercado por árvores centenárias, algumas delas conhecidas como “guardiãs”, com cerca de 400 anos.
A paisagem mistura cachoeiras de águas transparentes, trilhas na floresta e uma rica fauna, especialmente de anfíbios, borboletas e pássaros. Na região da Cordillera Escalera também há registros de jaguares, espécie ameaçada e foco de iniciativas locais de preservação.
Visitar a região é uma imersão na natureza e uma aula de gastronomia, uma vez que é possível conhecer ingredientes típicos da selva peruana, como aguaje, cocona, paiche, ajíes e cecina. Há ainda atividades ligadas à produção do mel de abelhas meliponárias, espécies sem ferrão que produzem um mel levemente cítrico e em pequenas quantidades, e oficinas de chocolate artesanal com cacau da região. (Giuliana Rovai )
Mais uma surpresa da AVOA: nesta edição, contamos com a participação de Giuliana Rovai, a brasileira que encontrou em Lima o lugar perfeito para viver e ama falar sobre gastronomia no Instagram.
Um abraço e até a próxima!




Huaraz -> está na minha lista de desejos
Sou Marilynmaníaca! Já vou ler as duas matérias indicadas por você. Obrigadíssima ;-)